Quando nomeei meu antigo blog ‘Mansões Filosofais’ o fiz motivado pelo livro “As Mansões Filosofais” do alquimista francês, Fulcanelli (1839-1923). A grande verdade, contudo, é que nunca li a referida obra por não ter qualquer interesse em alquimia. No entanto, o título despertou em mim aquilo que considero uma prerrogativa da Filosofia: a possibilidade de vários saberes, várias moradas, vários caminhos para o pensar. Foi uma interpretação – e consequente apropriação – livre do título da obra. Nunca quis que o blog fizesse referência, ou guardasse ar de parentesco, ao livro.
Como disse, na postagem anterior, o ‘Mansões’ foi criado durante meu período de mestrado em Ciência da Religião (PPCIR/UFJF). Eu acabara de sair da graduação em Filosofia (UFSJ), impregnado pela leitura de Heidegger, e desejoso de conciliar o estudo sistemático de textos-fonte das religiões com os estudos do filósofo da Floresta Negra. De maneira especial cria, àquela época, que no conceito de verdade, tal como trabalhado na obra heideggeriana, haveria de encontrar-se uma saída legítima para um fundo comum onde as religiões pudessem se encontrar e dialogar.
De fato, toda religião se propõe como portadora de Verdade. E não apenas isso, mas, toda religião se propõe como a ‘única’ portadora da Verdade. Se eu pudesse, em minha pesquisa, iluminar o tema da verdade como algo comum a toda e qualquer religião; se eu pudesse estabelecer que, de fato, a verdade religiosa não é tanto um conjunto de conteúdos nos quais se crê, mas a estrutura da experiência originária que cada religião tem com o Sagrado; se eu pudesse fazer isso, talvez pudéssemos ter abertura e diálogo.
Assim era meu projeto de pesquisa quando, em 2001, fiz a seleção para o Mestrado em Ciência da Religião. Eu queria, através da leitura e interpretação de um texto-fonte das religiões indianas – o Bhagavad-Gita – trazer à tona a problemática da experiência com o Sagrado, numa perspectiva heideggeriana da verdade.
Por fim, ao executar minha pesquisa de mestrado, foi preciso redefinir objetivos devido à limitação de tempo. Uma pesquisa como essa não caberia no curto espaço de 24 meses [tempo de integralização do Mestrado]. O resultado foi a dissertação Da Essência do Sagrado: um estudo a partir da compreensão de Verdade e Linguagem no pensamento de Martin Heidegger. Aqueles que se aventurarem a ler este estudo perceberão ecos daquele plano original. Contudo, perceberão também uma abordagem imatura e, até mesmo, ingênua do campo disciplinar da Ciência da Religião.
A decisão em estudar a obra do fundador do espiritismo, Allan Kardec (1804-1869), representa retomada do plano original de ler e interpretar os textos-fonte das religiões. Contudo, agora em uma abordagem mais ampla que aquela do plano original. Não mais a leitura e interpretação dos textos-fonte a partir do conceito de verdade em Heidegger, porém a partir do referencial teórico da hermenêutica filosófica. E, não apenas isso, mas buscando subsídios também nas Ciências Sociais e na Historiografia das Religiões. Alguns exemplos dessa nova perspectiva podem ser acessados e lidos através do link Produção Acadêmica. Espero que apreciem os textos e enviem suas críticas e contribuições.
De certa maneira essa mudança de foco e ampliação dos referenciais teóricos trouxeram-me uma melhor definição de meu perfil como pesquisador. E, nesse contexto, surge o ‘Scientia Religionis’ como o espaço para os ensaios de expressão dessa nova realidade em contínua formação. O título deste blog, portanto, vem oferecer o norte para esse processo: não apenas pensar nos limites da pesquisa em desenvolvimento; mas, pensar-se e criar identidade como cientista da religião através da reflexão meta-teórica e metodológica do campo disciplinar da Ciência da Religião.