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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Novas reflexões de um Agnóstico

Há sempre quem se incomode quando alguém se declara agnóstico. Eu recebi algumas manifestações nesse sentido quando da publicação do ensaio 'Reflexões de um Agnóstico'. Para uns esse personagem ambíguo é alguém que não teve coragem suficiente para se declarar ateu. Para outros, um religioso moderado ou alguém indeciso, sem personalidade. O que apenas poucos percebem é que, quando uma pessoa chega a se declarar agnóstico ela não está tomada de uma dúvida atroz, implorando a outros que a convençam por um ou outro lado. De fato, uma decisão já foi tomada, e esta é: como não sei nada sobre a existência ou inexistência de deus/deuses, deixarei a questão em aberto.

Essa é, a meu ver, uma postura adequada do ponto de vista intelectual. Nada tem a ver com fé ou ausência de fé, portanto. Não é crença ou ausência dela. Tão somente, por não haver evidências conclusivas, prefere-se aguardar. Não sendo, neste caso, uma resposta algo de urgente, o agnóstico prefere aguardar.

Mas, muitos seguem não acreditando que tal posicionamento seja possível. Dias atrás, em uma conversa, comparei a situação do agnóstico àquela dos que se declaram bissexuais: ninguém se convence de sua existência, exceto ele mesmo. E fui mal compreendido. No entanto, gostaria de repetir aqui a analogia. Obviamente não estou afirmando que, assim como os agnósticos, os bissexuais tomam uma posição sobre sua sexualidade. Sabemos que no campo das sexualidades não há, a rigor, escolhas. Exceto, talvez, no sentido de manifestar publicamente sobre seu desejo. No entanto, assim como os agnósticos, bissexuais são vítimas do preconceito que os acusa de ambiguidade, de estarem passando apenas por uma fase, de mentirem, etc.

Por que isso acontece? Minha opinião é que, em geral, toda aparente ambiguidade de uns e outros assusta. Para aqueles que, ao longo de suas vidas criaram suas identidades de gênero em função de uma sexualidade homo ou heteroafetiva, parece ser difícil compreender que haja uma identidade bissexual. O mesmo ocorre, no campo das crenças, em relação ao agnóstico. Teístas e ateístas (sim, pois o ateísmo é ainda uma crença), com suas identidades definidas a partir da decisão de crer ou não em deus/deuses, em geral, não conseguem (ou não se esforçam) por compreender que alguém não se sinta pressionado a tomar uma posição, naquilo que consideram uma guerra.

Foi dessa situação que tratou o ensaio em questão. E fez isso a partir de um caso concreto. Muitos não perceberam – por exclusiva responsabilidade do autor – que o texto era uma crítica às certezas infundadas que projetam suas ‘sombras’  por todos os lados. Em nosso exemplo, um líder religioso que, atribuindo à simples declaração de ateísmo por uma personalidade pública um grau de responsabilidade desproporcional à manifestação de uma opinião pessoal, elogia e se identifica com uma declaração feita por Jung. O texto gostaria de assinalar, portanto, que maior é a responsabilidade daquele que não apenas declara seu posicionamento pessoal, mas afirma: “Eu não acredito em deus, eu sei que ele existe”. O mesmo valendo para aqueles que pensam ter razões suficientes para declarar que são ateus porque ‘sabem’ da inexistência de deus/deuses. E repito aqui a pergunta que lá se colocava: Como alguém poderia ter essa certeza?

A resposta, para mim, é simples: não se pode ter certeza. E, em sendo assim, melhor calar.

4 comentários:

Antônio Margarido disse...

Augusto, o bissexual pode exercer seu potencial masculino, feminino ou ambos. O agnóstico também pode acreditar em Deus, negar a existência de Deus ou ambas as hipóteses? A comparação não se sustenta. Eu também digo: "Não acredito em Deus, sei que ele existe." E quando li que também Jung disse isso, não me surpreendi, pois conheço dezenas de pessoas que dizem o mesmo. Isso não é fé, nem crença: é experiência existencial. E milhares de pessoas têm essa experiência. É certo que muitas a confundem com fé e crença. Mas a experiência é genuína.

Augusto Araujo disse...

Antônio, a analogia não se sustentaria se fosse essa a que você se refere. Mas, se você reler o artigo, os termos são outros aqui. Trata-se, antes, do modo como agnósticos e bissexuais são vistos e julgados por aqueles que não os compreendem, do que uma comparação entre agnosticismo e bissexualidade.

Um abraço! A.

Vital Cruvinel disse...

Oi, Augusto!

Achei a analogia muito justa, mas fiquei pensando se não seria mais "complicadada" a declaração de ser ateu do que ser agnóstico.

E, se for o caso, declarar-se agnóstico não seria uma forma do ateu se preservar destas complicações?

Claro que penso que não é o seu caso porque você demonstra muita segurança em suas não-certezas.

Abraço!

Augusto Araujo disse...

Acho ambas as declarações muito complicadas, Vital. Um ateu também sofre sua carga de preconceitos apenas por se declarar ateu.

No entanto, um agnóstico, muitas vezes sofre preconceito tanto do lado dos teístas quanto do lado dos ateístas.

É aqui que a analogia se aplica bem.

Há quem defenda uma escala ilustrativa dos graus de crença na ideia de deus/deuses. Num extremo o teísta e no outro o ateísta. Entre eles graus diferentes de crença e de agnosticismo. Uns pendendo mais para o lado teísta, outros para o lado ateísta.

Pode haver, sim, ateus que achem mais cômodo se declarar agnósticos. Quem vai saber, né?!

Mas, o que mais tenho visto por aí é gente se declarando ateu - porque está na moda - mas que, na prática, tem mais uma atitude agnóstica do que propriamente ateísta.

Eu defendo que cada um deve se haver com essa questão da maneira que lhe convier. Considero mesmo que as experiências de vida contam bastante na definição do status de uma pessoa frente a essa questão. Mas, sobretudo, considero que é uma auto-definição.

Eu convivo muito bem com a incerteza frente a esse tema espinhoso. E isso acontece porque, para mim, filosoficamente a incerteza é mais instigante e desafiadora.

Um abraço! A.